ESPORTES EM NÚMEROS

NOVOS RECORDES

 

O USO DA CREATINA

Fonte: Revista O2  - Edição 16

 

Com os inúmeros apelos para consumirmos isso ou aquilo e as diversas sugestões de “amigos-técnicos” que nos indicam suplementos alimentares “milagrosos”, muitas vezes fica difícil saber o que realmente funciona, o que é inofensivo e o que pode ser prejudicial ao corpo. Entre as substâncias que vêm chamando a atenção de pessoas sempre prontas a experimentar o último lançamento, está a creatina. Apesar de sua função ser reconhecida há décadas, apenas nos últimos dez anos discute-se os possíveis efeitos da suplementação desse composto na performance. Prometendo aumentar rapidamente a massa muscular e a capacidade de gerar força num curto espaço de tempo, ela tem sido foco de estudos nutricionais e fisiológicos que estão descortinando seus reais benefícios.

 

O que é

A creatina é uma substância natural encontrada na carne vermelha e no peixe, e que também pode ser consumida na forma de suplementos em pó e em xarope. Ela exerce importante papel na contração muscular, fornecendo o fosfato para que o ciclo do ATP, responsável pela produção de energia em nosso corpo ( veja infográfico), possa se manter por mais tempo. É como um combustível que fica armazenado em nossas células, pronto para ser usado quando necessário.

 

A creatina que ingerimos através da alimentação ou da suplementação é absorvida pelo intestino e lançada na corrente sanguínea sem sofrer alterações. A partir daí, é transportada por proteínas específicas para os músculos, onde se une ao fosfato e fica armazenada para ser “queimada” durante a atividade física. “Apesar de ser resultado da união de três aminoácidos, a creatina não é uma proteína. Ela é uma forma de armazenamento de energia muscular”, diz Flávia Abdallah, nutricionista da Clínica do Movimento, doutoranda em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e especialista em fisiologia do exercício (Unifesp).

 

Peso na corrida

A idéia de uma substância capaz de renovar infinitamente nosso estoque de energia é suficiente para fazer brilharem os olhos de qualquer corredor. Mas infelizmente esses benefícios só aparecem em atividades de curta duração e alta intensidade – os ganhos para quem corre, uma atividade caracteristicamente de resistência, são nulos. 

 

A ineficácia da creatina para atividades de longa duração foi comprovada num estudo feito pela Universidade de Medicina Karolisnka, na Suécia. Nove corredores receberam suplementação de creatina (20g por dia) por seis dias, enquanto outros nove corredores ingeriram placebo. Todos os corredores eram bem treinados e experientes. Depois de seis dias, os atletas correram uma prova de 6km em terreno acidentado e, no dia seguinte, correram numa esteira até a exaustão num ritmo ligeiramente mais rápido do que seu melhor ritmo em provas de 5km. Nenhum dos corredores obteve melhora de performance na esteira. O grupo da creatina levou em média 30 segundos a mais para completar o percurso de 6km e apresentou maiores níveis de lactato no sangue depois do esforço na esteira. Os pesquisadores atribuíram esse resultado ao ganho de peso – em torno de 1%, segundo verificado no estudo – e ao aumento da densidade das fibras rápidas promovido pela creatina.

 

Ao armazenar-se nos músculos, a creatina provoca a retenção de água, trazendo uma aparência mais inchada e alguns quilos a mais. É por isso que muitos halterofilistas usam a creatina para ganhar massa muscular. Mas esse inchaço não vem acompanhado de aumento de força. “Os músculos são constituídos de aproximadamente 70% de água. A creatina leva água para as células musculares, dando-lhes volume, mas esse efeito é passageiro”, completa Flávia. Para os corredores, esse é mais um argumento para evitar a suplementação de creatina, uma vez que o aumento do peso corporal nos obriga a fazer mais força para nos mover quilômetro após quilômetro.

 

Só para velocistas

Já para velocistas a creatina parece ser mais eficiente. Estudos feitos pelo Dr. Eric Rawson, Ph.D do Departamento de Ciência do Exercício da Universidade de Bloomsburg, na Pensilvânia, e pela Dra. Priscilla Clarkson, da Universidade de Massachusetts, observaram o aumento da velocidade em provas de 100m e a redução total no tempo de seis sprints intermitentes de 60m nos indivíduos que receberam creatina, em comparação a nenhuma mudança do grupo que recebeu placebo. “Aproximadamente 70% dos estudos realizados sobre a suplementação de creatina em exercícios de alta intensidade e de curta duração mostram algum benefício ergogênico, ou seja, algum ganho obtido através da suplementação da substância que não seria promovido naturalmente pelo organismo”, revela o bioquímico R.B. Kreider em seus estudos de suplementação de creatina no aumento da performance e na adaptabilidade em treinamentos.

 

Entre esses estudos, está a pesquisa realizada por Kreider com atletas de salto em altura. Depois de ingerirem creatina, esses atletas saltaram no mesmo lugar por 45 segundos. Observou-se um aumento na performance de 7% nos primeiros 15 segundos, de 12% nos 15 segundos seguintes e nenhum benefício nos 15 segundos finais. Em testes de ciclismo de 30 segundos, foi constatado um aumento de 4% na média da performance dos atletas que receberam 20g de creatina por cinco dias antes do teste.

 

Esses resultados são explicados pela maneira que a creatina se armazena em nossos músculos:  5% da creatina que temos em nosso corpo é armazenada nas fibras de contração rápida – músculos que executam trabalhos de explosão, gerando grandes quantidades de força em pouco tempo. Isso ocorre porque a creatina serve de combustível somente para um dos possíveis processos de quebra de ATP, o anaeróbio alático ( veja quadro), que ocorre em exercícios de alta intensidade e curta duração. Por isso a creatina é necessária somente em treinos que possuam essa característica e mostrase pouco útil na manutenção de atividades mais longas e sustentadas.

 

“O uso da creatina como suplemento em corridas longas não tem justificativa na literatura científica. Sua ação é visível somente em exercícios de curta duração e de grande intensidade, como as provas de tiro de 100m rasos, sprints, levantamento de pesos e outras modalidades que envolvam esforços intensos e breves”, completa Anna Cristina Castilho, especialista em fisiologia do exercício pela Unifesp/EPM, nutricionista do Instituto de Metabolismo e Nutrição (IMeN) e nutricionista da equipe Helix de assessoria esportiva.

 

O American College Of Sports Medicineconfirma os benefícios da creatina para atividades de curta duração, mas afirma que ainda faltam estudos que estabeleçam uma média significativa para a comprovação segura de seus prováveis efeitos. “Existe muita coisa errada e mal pesquisada na suplementação com a creatina. É preciso cuidado com promessas milagrosas de ganho de rendimento e massa muscular em qualquer substância”, afirma o Dr. Turíbio Leite, fisiologista do esporte da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

 

Novidade

Um estudo feito em 2002 pelo Laboratório de Biologia Celular do Departamento de Saúde e Nutrição da Universidade do Texas descobriu algo de novo em relação à creatina. Foram constatadas evidências de que essa substância possui características antioxidantes, combatendo os radicais livres e evitando o envelhecimento celular. A pesquisa foi realizada somente em laboratório e ainda não há conclusões de que a creatina tenha o mesmo comportamento no organismo humano.

 

Sempre com acompanhamento

Cada quilo de carne ou peixe oferece cerca de 5g de creatina. Mas mesmo quem capricha nas quantidades desses alimentos não precisa se preocupar com riscos de uma superdosagem – o perigo está nos suplementos que oferecem dosagens maiores que as naturais.

 

A creatina pode ser encontrada no mercado como creatina monohidratada ou xarope de creatina. “São apenas formas de apresentação do produto – a eficácia é a mesma. O xarope, em especial, pode não ter a quantidade prometida na dosagem e possui os mesmos efeitos colaterais das outras formas”, observa Turíbio. 

 

A suplementação costuma ser feita com 20 ou 30g/dia nos cinco primeiros dias, o que representa um aumento de 25% nos níveis de creatina muscular – muito superiores à quantidade que seria normalmente ingerida. Alguns atletas ingerem tais quantidades por semanas ou meses, comprometendo o organismo. “O consumo indiscriminado pode prejudicar a função hepática e renal porque sobrecarrega os rins e o fígado”, alerta Flávia. Além disso, em 1998 a Food And Drug Administration (FDA, órgão que controla todos os produtos alimentares vendidos nos Estados Unidos) publicou uma lista de 32 possíveis efeitos colaterais associados à suplementação com creatina. Entre eles estão relatos de diarréias, ansiedade, arritmias cardíacas, vômitos, cãibras e tromboses.

 

Como sempre, é importante consultar um médico ou nutricionista antes de ingerir qualquer suplemento alimentar. Uma boa alimentação e um treinamento bem estruturado são ainda a melhor maneira de fazer seu condicionamento físico evoluir com segurança. ::

 

 

RAPIDINHAS DA CREATINA

:: Substância natural encontrada na carne vermelha e no peixe.

:: É uma forma de armazenamento de energia muscular (creatina-fosfato).

:: 95% da quantidade total de creatina que temos em nosso corpo é armazenada nos músculos com fibras de contração rápida. Por isso, sua ação é visível somente em exercícios de curta duração e de grande intensidade e, ainda assim, com pouca melhora na performance.

:: Não melhora a performance em exercícios de resistência como a corrida.

:: Provoca a retenção de água e traz uma aparência mais inchada e aumento de peso.

:: Entre os efeitos colaterais relatados pelos usuários estão cãibras, diarréia e vômito.

 

ATP, MUITO PRAZER

A energia que usamos para nos manter vivos vem da nossa alimentação. A comida que ingerimos é digerida e quebrada por uma série de reações químicas até se transformar numa molécula de ATP, em cuja estrutura está a energia que necessitamos para realizar todas as atividades – inclusive treinar. “Durante a corrida, a energia para a contração do músculo vem da quebra da molécula do ATP, que se transforma então em ADP ou adenosina difosfato. A creatina fica armazenada na célula muscular como creatina-fosfato, que fornece ao ADP o fósforo necessário para transformá-lo em ATP novamente e, assim, garantir que a contração muscular possa continuar acontecendo”, explica a nutricionista Anna Cristina Castilho.

 

O ATP pode ser “quebrado” através de vários processos:

1:: respiração celular: ocorre em atividades de intensidade leve e moderada, como os treinos longos. Usa o oxigênio como combustível.

2:: glicólise anaeróbia: ocorre em exercícios de alta intensidade, como os treinos de tiro ou intervalados. Usa a glicose como combustível e envolve a desintegração incompleta do carboidrato, transformandoo em ácido láctico.

3:: anaeróbio aláctico: ocorre em atividades muito intensas, que envolvem força e velocidade, como levantamento de peso e sprints de 100 metros. Usa a creatina-fosfato como combustível e também produz ácido lático.

 

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